domingo, 11 de janeiro de 2026

Um lugar literário pouco freqüentado

Gosto de assistir vídeos no YouTube, talvez seja minha maior perda de tempo hoje. Esses dias vi um trecho de uma palestra espetáculo de Ariano Suassuna em que ele perguntava se alguém na plateia ouvira falar de Kant; obviamente quase todos levantaram a mão. Claro, ele retrucou, Kant foi o filósofo alemão mais importante do século 18. Em seguida, perguntou quem na palestra ouvira falar de Matias Aires. Uma só pessoa levantou a mão. Suassuna explica então que Matias Aires foi o maior filósofo de língua portuguesa do mesmo século de Kant, reforçando seu argumento de que não apenas valorizamos o que é estrangeiro, mas desvalorizamos tanto o que é nosso a ponto de ignorarmos sua existência. O clímax cômico vem quando ele pergunta ao rapaz que levantou a mão onde ele ouvira falar sobre Matias Aires e o rapaz responde que é o nome da rua onde mora. 

Entendo perfeitamente o argumento de Suassuna e tendo a concordar com a defesa que ele faz do que é bom e grandioso em nossa herança cultural, mas vejo uma falha e talvez uma pequena simplificação (não chegaria a chamar de desonestidade) intelectual: o valor e a "nomeada" de um filósofo não dependem apenas da língua que fala ou de sua promoção - dependem, imagino, da qualidade e da relevância de sua obra filosófica. Hoje, acho mais surpreendente que tanta gente na palestra tivesse ouvido falar de Kant do que sua ignorância em relação a Matias Aires. Certamente um público mais intelectualizado. Baruch Espinosa também era, por assim dizer, da tradição filosófica portuguesa e é muito mais conhecido do que Aires e talvez tanto quanto Kant.

O problema é que para fazer a defesa de uma ideia normalmente se usam generalizações e simplificações. O poder do argumento de Suassuna seria perdido se ele fosse explicar que Kant é tão conhecido porque "reorganizou o campo inteiro da filosofia", enquanto Matias Aires, considerado um moralista agudo e elegante, não criou uma ruptura conceitual de grande escala, não gerou uma tradição nem obrigou as gerações posteriores a dialogar com ele, daí seu relativo desconhecimento hoje. Ariano não mentiu nem inventou: para fortalecer seu argumento, ele omitiu e simplificou. Ainda assim, eu acho esse um subterfúgio intelectual arriscado. Como um pesquisador atuante, eu prefiro sustentar meus argumentos com fatos, de preferência os publicados e avaliados por pares.

Recentemente, uma pessoa que prezo me disse que não acreditava que a humanidade fosse responsável pelas mudanças climáticas, que o planeta era grande demais para que as atividades humanas pudessem ter um efeito tão grande. Até aí, achei as dúvidas válidas, mas facilmente retrucáveis. Por fim, a pessoa abriu o YouTube no celular, me mostrou uma palestra do meteorologista e negacionista climático Luiz Carlos Molion e disse exatamente essas palavras: "a opinião que eu gosto é desse aqui". Há algum tempo, alguém comentou em um texto meu que não via por que a opinião de um cientista valia mais do que a de qualquer pessoa. Aí reside o equívoco do século.

Um bom cientista, ao falar de um assunto de base científica, dará suas impressões a partir de dados científicos, obtidos utilizando-se o método científico. O que torna a fala científica diferente não é o cientista “ter um método”, mas o fato de que o conhecimento é produzido sob restrições e mecanismos de correção que opiniões comuns não têm: evidência pública e verificável, métodos de controle de erro, reprodutibilidade/replicação quando aplicável, convergência de múltiplas linhas de evidência, revisão por pares e escrutínio comunitário. Uma opinião desse tipo não é equivalente a uma opinião baseada em gosto ou preferência.

Quando abrimos mão de critérios rigorosos de validação intelectual em nome da eficácia retórica ou do conforto pessoal, criamos um terreno movediço onde qualquer “opinião que eu gosto” pode se apresentar como equivalente ao conhecimento. No caso de Suassuna, parece-me que o uso de recursos retóricos é válido porque ele geralmente emite sua opinião sobre arte, sobre estética, onde o critério de valor reside no bom-gosto, na preferência, seja ela canônica ou não. E isso não quer dizer que em Arte vale qualquer coisa, tampouco.

Nas discussões sobre o valor artístico há pluralidade de critérios, há disputas canônicas legítimas, mas a demonstração raramente é do tipo “prova”. Ainda assim, quando discute o valor de um filósofo ou de uma filosofia, aprovo os recursos retóricos com ressalvas, como no exemplo dado. As mudanças climáticas e sua origem a partir das ações humanas são consideradas fatos científicos não porque essa é a opinião dos cientistas, mas porque as evidências apontam fortemente para isso, independente do gosto pessoal do cientista ou de seu talento retórico.

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