Os textos do paleontólogo americano Stephen Jay Gould moldaram minha visão sobre o método científico e, acima de tudo, sobre o que constitui um bom texto de divulgação científica. Não gosto de esportes, mas o uso magistral de Gould de metáforas e explicações envolvendo o baseball quase me despertam a curiosidade sobre esse jogo. Sei que as ideias de Gould e mesmo alguns de seus textos são controversos. Entendo que não há consenso sobre algumas de suas interpretações e mesmo sobre alguns conceitos inovadores como exaptação e equilíbrio pontuado, mas não há melhor estilista da divulgação científica escrita do que ele.
Nunca vou esquecer o prazer intenso de ler suas colunas mensais na revista do Museu de História Natural no último andar da saudosa biblioteca central da Universidade Federal de Viçosa. Só então entendi a importância do que eu estava fazendo como pesquisador em treinamento e do método científico como modelo de entendimento do mundo. Pelos textos de Gould, Darwin se tornou um ídolo pessoal, um deus no panteão da Ciência e o próprio Gould um dos principais heróis.
Na coletânea de textos Ever since Darwin estão alguns dos melhores textos de Stephen Jay Gould, mas dois textos particularmente dialogaram com preocupações minhas. O primeiro, The validation of continental drift, fala sobre o ceticismo inicial da teoria da deriva continental e sobre a impressão, muitas vezes falsa, de que o conhecimento científico avança linearmente pelo acúmulo gradual de dados e que a aceitação de novas teorias dependeria unicamente da existência de dados apontando para sua validade.
Gould argumenta que os dados geológicos que posteriormente dariam apoio à ideia da deriva continental já existiam mesmo quando a hipótese era vista com ceticismo, mas que havia uma lacuna teórica que impedia sua aceitação por cientistas considerados sérios: o mecanismo que explicasse como os continentes se moviam sobre a crosta terrestre. Resumidamente, ainda não existiam evidências claras que dessem suporte a uma outra ideia revolucionária - a de que a crosta terrestre está dividida em grandes pedaços chamados placas tectônicas. Gould argumenta que "fatos não falam por si mesmos" e que "novos fatos coletados sob a orientação de antigas teorias raramente conduzem a qualquer revisão substancial do pensamento" científico. É necessário um arcabouço teórico subjacente que confira coerência e permita a interpretação dos dados coletados.
Alguém poderia se apossar da interpretação de Gould e argumentar que certas afirmações ousadas ou interpretações heterodoxas de dados científicos são mal aceitos pela ausência de um arcabouço teórico que lhes dê coerência. O segundo texto da coletânea que me impressionou fala exatamente disso e demonstra que uma teoria não necessariamente valida uma hipótese, a qual pode estar simplesmente errada. O texto Velikovsky in collision narra como o psiquiatra Immanuel Velikovsky tentou "reconstruir a ciência da mecânica celeste para defender a acurácia literal de antigas lendas", principalmente relatos bíblicos e de outras tradições religiosas.
A forma de ação interpretativa de Velikovsky é exatamente o oposto da da maioria dos cientistas atuantes. Enquanto um pesquisador sério verifica se sua interpretação dos dados coletados explicam a realidade observada, modificando a interpretação caso não expliquem, Velikovsky partiu de uma intepretação literal de antigas narrativas, considerando-as rigorosamente verdadeiras, e a partir disso "tenta encontrar alguma explicação física, por mais bizarra, que tornassem aquelas narrativas mutuamente consistentes e verdadeiras."
Inevitavelmente lembrei-me de algumas afirmações e hipóteses controversas dentro das Ciências Agrárias. Mais de uma vez me deparei com o argumento de que a dificuldade de comprovar experimentalmente certas afirmações não era porque estivessem erradas, mas por uma falha intrínseca do método científico. Muito bem disse Carl Sagan: "afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias".
Ao constatar que suas hipóteses não eram sustentadas pelas leis de Newton, Velikovsky "propôs uma física fundamentalmente nova de forças eletromagnéticas agindo sobre corpos celestes", mais ou menos como a piada de que as pessoas flutuavam antes da "descoberta" da lei da gravidade. Tudo isso sem nenhuma evidência minimamente crível, quanto mais extraordinária. Por fim, Gould resume magistralmente seus argumentos ao afirmar que o reconhecimento de Galileu não se deve à perseguição que suas ideias sofreram, mas ao fato de que essas ideias estavam corretas.
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