Quando eu fazia mestrado em Viçosa um dos lugares onde eu mais gostava de passar o tempo era no andar de periódicos da biblioteca central. Acho que foi ali que descobri minha vocação para a pesquisa científica. Um dia, folheando um periódico europeu da área de solos, li um artigo sobre cujo tema eu nunca refletira e nem imaginara que pudesse ser objetivo de investigação científica. O trabalho avaliava a saúde mental de agricultores cujas fazendas tinham solos de diferentes texturas. Lembro de poucos detalhes dos resultados, mas creio que chegaram à conclusão que havia indícios de efeito da textura do solo sobre a saúde dos investigados, com produtores que cultivavam em solos argilosos mais ansiosos ou estressados do que aqueles cujas propriedades estavam sobre solos arenosos. Não parecia ser uma influência direta do solo, mas das dificuldades advindas do cultivo de solos pesados (maior desgaste de máquinas, mais gastos com tratores mais potentes, problemas de drenagem...). Achei um estudo interessantíssimo.
Embora hoje não seja um tipo de análise muito comum, o Brasil tem uma tradição de analisar o efeito da terra e de outros fatores ambientais sobre o homem. Acredito que o pioneiro seja Euclides da Cunha com Os Sertões, mas há outros. Gilberto Freyre já se debruçava sobre o tema em Casa-Grande & Senzala, ao narrar as dificuldades iniciais do colonizador português com o clima tropical, o qual não permitia "nem a prática de sua lavoura tradicional regulada pelas quatro estações do ano nem a cultura vantajosa daquelas plantas alimentares a que ele estava desde há muitos séculos habituado."
Gilberto Freyre perspicazmente entendeu que a ruptura entre a agricultura feita em Portugal e aquela que deveria ser realizada no Brasil não se dava meramente no plano alimentar, com a mudança do trigo para a mandioca, como ele mesmo exemplificou; as condições de clima e solo nas regiões tropicais requeriam uma mudança mais profunda em todo o sistema de produção agrícola, uma "rude mudança". E faz uma observação de como esse diferencial pode até certo ponto explicar a divergência histórica, em termos de desenvolvimento regional, entre o Brasil e os Estados Unidos, ao constatar que "o colonizador inglês dos Estados Unidos levou sobre o português do Brasil decidida vantagem, ali encontrando condições de vida física e fontes de nutrição semelhantes às da mãe-pátria."
Não foram apenas as "condições de vida física e fontes de nutrição semelhantes às da mãe-pátria" o que caracterizou a possível maior facilidade de adaptação do colono agricultor inglês na América do Norte. No Brasil a maior parte das terras das zonas mais úmidas, mais apropriadas à prática agrícola, está sobre solos completamente diferentes dos solos encontrados em climas temperados como os de Portugal. A ação intensa e contínua do clima tropical, caracterizado por altas temperaturas e abundante pluviosidade, sobre o material de origem dos solos e sobre os próprios solos deu origem ao que os profissionais das Ciências Agrárias conhecem como Latossolos. Esta classe de solos se caracteriza por alta acidez, altos teores do elemento alumínio, tóxico para os cultivos, e em geral baixíssimos teores dos elementos nutrientes fósforo, cálcio e magnésio. Estes fatores foram tão determinantes para o avanço da agricultura no Brasil tropical que hoje uma das grandes contribuições das Ciências Agrárias brasileiras foi ter possibilitado o uso agrícola dos solos do Cerrado através da correção da acidez e do aumento da fertilidade dos solos.
Em termos historiográficos, é possível que ainda não se tenha realizado uma análise profunda do papel da fertilidade do solo sobre o desenvolvimento da agricultura no Brasil. Embora vários naturalistas europeus tenham se debruçado sobre a originalidade e a estranheza dos profundos solos ácidos e ricos em ferro cobrindo grandes extensões do território brasileiro e exista uma riquíssima literatura científica sobre os mesmos, pouco se explorou nas Ciências Sociais a importância ecológica e humana destes solos.
A questão da escassez de solos férteis não passou despercebida para Gilberto Freyre, o qual observou que "o solo, excetuadas as manchas de terra preta ou roxa, de excepcional fertilidade, estava longe de ser o bom de se plantar nele tudo o que se quisesse, do entusiasmo do primeiro cronista. Em grande parte rebelde à disciplina agrícola. Áspero, intratável, impermeável." E continua falando da nocividade do novo ambiente e dos organismos naturais ao colonizador, "particularmente ao homem agrícola, a quem por toda parte afligem mal ele inicia as plantações, as 'formigas que fazem muito dano' à lavoura; a 'lagarta das roças'; as pragas que os feiticeiros índios desafiam os padres que destruam com os seus sinais e as suas rezas." (As aspas neste último parágrafo correspondem a citações de correspondência do Padre Manuel da Nóbrega).
Segundo Warren Dean (With broadax and firebrand, 1995), comentado por Diogo de Carvalho Cabral (Into the bowels of tropical earth, 2015) o encurtamento do período produtivo da terra no sistema colonial de coivaras (slash and burn) em razão da multiplicação das saúvas, confirmando "the impermanence of settlement inherent in slash and burn", desestimulou a adoção de técnicas de aumento de produtividade, como o arado. Interessante reflexão.
As "formigas que fazem muito dano à lavoura", principalmente a saúva, inexistente em Portugal e completamente alheia à experiência agrícola do colonizador português. Para o brasilianista Warren Dean, caso o colonizador português possuísse os meios para combater eficientemente ou eliminar a saúva, a agricultura e a história brasileiras teriam sido muito diferentes.
O quanto se perde de potencial explicativo por não se ter mais historiadores com treinamento em ecologia ou agrônomos com treinamento em história. A agricultura brasileira vem passando por profundas mudanças desde a década de 60 do século passado, com a incorporação do Cerrado, a adoção ampla de tecnologia, a expansão ecológica de cultivos. Quem registra e explica satisfatoriamente essas mudanças?