sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

História e Agronomia

Quando eu fazia mestrado em Viçosa um dos lugares onde eu mais gostava de passar o tempo era no andar de periódicos da biblioteca central. Acho que foi ali que descobri minha vocação para a pesquisa científica. Um dia, folheando um periódico europeu da área de solos, li um artigo sobre cujo tema eu nunca refletira e nem imaginara que pudesse ser objetivo de investigação científica. O trabalho avaliava a saúde mental de agricultores cujas fazendas tinham solos de diferentes texturas. Lembro de poucos detalhes dos resultados, mas creio que chegaram à conclusão que havia indícios de efeito da textura do solo sobre a saúde dos investigados, com produtores que cultivavam em solos argilosos mais ansiosos ou estressados do que aqueles cujas propriedades estavam sobre solos arenosos. Não parecia ser uma influência direta do solo, mas das dificuldades advindas do cultivo de solos pesados (maior desgaste de máquinas, mais gastos com tratores mais potentes, problemas de drenagem...). Achei um estudo interessantíssimo. 

Embora hoje não seja um tipo de análise muito comum, o Brasil tem uma tradição de analisar o efeito da terra e de outros fatores ambientais sobre o homem. Acredito que o pioneiro seja Euclides da Cunha com Os Sertões, mas há outros. Gilberto Freyre já se debruçava sobre o tema em Casa-Grande & Senzala, ao narrar as dificuldades iniciais do colonizador português com o clima tropical, o qual não permitia "nem a prática de sua lavoura tradicional regulada pelas quatro estações do ano nem a cultura vantajosa daquelas plantas alimentares a que ele estava desde há muitos séculos habituado." 

Gilberto Freyre perspicazmente entendeu que a ruptura entre a agricultura feita em Portugal e aquela que deveria ser realizada no Brasil não se dava meramente no plano alimentar, com a mudança do trigo para a mandioca, como ele mesmo exemplificou; as condições de clima e solo nas regiões tropicais requeriam uma mudança mais profunda em todo o sistema de produção agrícola, uma "rude mudança". E faz uma observação de como esse diferencial pode até certo ponto explicar a divergência histórica, em termos de desenvolvimento regional, entre o Brasil e os Estados Unidos, ao constatar que "o colonizador inglês dos Estados Unidos levou sobre o português do Brasil decidida vantagem, ali encontrando condições de vida física e fontes de nutrição semelhantes às da mãe-pátria."

Não foram apenas as "condições de vida física e fontes de nutrição semelhantes às da mãe-pátria" o que caracterizou a possível maior facilidade de adaptação do colono agricultor inglês na América do Norte. No Brasil a maior parte das terras das zonas mais úmidas, mais apropriadas à prática agrícola, está sobre solos completamente diferentes dos solos encontrados em climas temperados como os de Portugal. A ação intensa e contínua do clima tropical, caracterizado por altas temperaturas e abundante pluviosidade, sobre o material de origem dos solos e sobre os próprios solos deu origem ao que os profissionais das Ciências Agrárias conhecem como Latossolos. Esta classe de solos se caracteriza por alta acidez, altos teores do elemento alumínio, tóxico para os cultivos, e em geral baixíssimos teores dos elementos nutrientes fósforo, cálcio e magnésio. Estes fatores foram tão determinantes para o avanço da agricultura no Brasil tropical que hoje uma das grandes contribuições das Ciências Agrárias brasileiras foi ter possibilitado o uso agrícola dos solos do Cerrado através da correção da acidez e do aumento da fertilidade dos solos. 

Em termos historiográficos, é possível que ainda não se tenha realizado uma análise profunda do papel da fertilidade do solo sobre o desenvolvimento da agricultura no Brasil. Embora vários naturalistas europeus tenham se debruçado sobre a originalidade e a estranheza dos profundos solos ácidos e ricos em ferro cobrindo grandes extensões do território brasileiro e exista uma riquíssima literatura científica sobre os mesmos, pouco se explorou nas Ciências Sociais a importância ecológica e humana destes solos. 

A questão da escassez de solos férteis não passou despercebida para Gilberto Freyre, o qual observou que "o solo, excetuadas as manchas de terra preta ou roxa, de excepcional fertilidade, estava longe de ser o bom de se plantar nele tudo o que se quisesse, do entusiasmo do primeiro cronista. Em grande parte rebelde à disciplina agrícola. Áspero, intratável, impermeável." E continua falando da nocividade do novo ambiente e dos organismos naturais ao colonizador, "particularmente ao homem agrícola, a quem por toda parte afligem mal ele inicia as plantações, as 'formigas que fazem muito dano' à lavoura; a 'lagarta das roças'; as pragas que os feiticeiros índios desafiam os padres que destruam com os seus sinais e as suas rezas." (As aspas neste último parágrafo correspondem a citações de correspondência do Padre Manuel da Nóbrega).

Segundo Warren Dean (With broadax and firebrand, 1995), comentado por Diogo de Carvalho Cabral (Into the bowels of tropical earth, 2015) o encurtamento do período produtivo da terra no sistema colonial de coivaras (slash and burn) em razão da multiplicação das saúvas, confirmando "the impermanence of settlement inherent in slash and burn", desestimulou a adoção de técnicas de aumento de produtividade, como o arado. Interessante reflexão. 

As "formigas que fazem muito dano à lavoura", principalmente a saúva, inexistente em Portugal e completamente alheia à experiência agrícola do colonizador português. Para o brasilianista Warren Dean, caso o colonizador português possuísse os meios para combater eficientemente ou eliminar a saúva, a agricultura e a história brasileiras teriam sido muito diferentes.

O quanto se perde de potencial explicativo por não se ter mais historiadores com treinamento em ecologia ou agrônomos com treinamento em história. A agricultura brasileira vem passando por profundas mudanças desde a década de 60 do século passado, com a incorporação do Cerrado, a adoção ampla de tecnologia, a expansão ecológica de cultivos. Quem registra e explica satisfatoriamente essas mudanças?


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Villa Doraci

Em minha cidade natal na Paraíba, Patos, havia uma belíssima residência, não sei se de estilo neoclássico, chamada Villa Doraci. Uma casa com nome, como na Europa. O dono era um médico conceituado, Dr. Severino Ayres de Araújo, de família rica, possuiu o primeiro automóvel da cidade, importado de navio. Dr. Severino batizou a mansão em homenagem a sua esposa, Doraci Wanderley, mulher de sangue nos olhos, como se dizia. Quando comecei minhas inquisições genealógicas na adolescência me aconselharam a procurá-lo. Apesar de minha timidez, fui à casa dele acompanhado de um amigo que o conhecia bem, cuja mãe havia sido cria da casa. Tivemos uma conversa muito agradável e o velho médico me emprestou um de seus cadernos de anotações genealógicas, cadernos de ata de capa preta, escritos numa bonita letra cursiva, com informações interessantes sobre cada pessoa citada.

Aqueles cadernos eram uma formidável contribuição à Historiografia sertaneja, assim como a Villa Doraci era uma notável obra arquitetônica no meio da simplicidade sertaneja. Não existem mais, nem os cadernos nem a residência. Não temos mais consideração pela História. Pelo contrário, quando morei na Zona da Mata mineira, quantos novos ricos ouvi dizerem que detestavam Ouro Preto porque quem gosta de passado é museu. Quanto risco civilizatório existe no poder econômico dissociado do capital cultural. A começar pelo descaso com os monumentos, com os livros, com as obras arquitetônicas. Villa Doraci e os cadernos de Dr. Severino são um símbolo desse descaso. Severino Ayres de Araújo vinha de outra época, quando o acúmulo de capital financeiro era geralmente acompanhado do desejo de se acumular capital cultural. Era neto de José Peregrino de Araújo, o qual governou a Paraíba de 1900 a 1904. 

Assim como se observa hoje e que talvez seja uma tendência comum, a ascensão social conduz à busca pelas origens como forma de consolidar o capital financeiro, político e mesmo cultural. Busca pelo resgate de um capital simbólico porventura esquecido de uma linhagem outrora célebre. Assim vejo os esforços de pesquisa genealógica de Dr. Severino. Uma residência suntuosa de estilo europeu, de muito bom gosto, era mais um símbolo, um sinal de diferença, atestando não apenas a riqueza, mas o refinamento cultural de uma família. Imaginem demolir isso em favor de um desses prédios padronizados para alugar escritórios. Considerem o que se perde ao substituir as anotações genealógicas por posts anódinos no Instagram. Reflitam sobre o declínio de se desprezar uma cultura humanista por vídeos extremistas no YouTube.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Releituras

Acho que preciso reler os livros da juventude. Hoje li um livro de Rubem Fonseca que parece ser uma continuação de outro, lido há décadas e completamente esquecido. Percebo que meu gosto por literatura e mesmo minha habilidade em escrever têm raízes em livros que lembro de ter lido, mas de cujos enredos me esqueço completamente. Comecei a ler cedo, menino inexperiente e tímido. Os livros moldaram fortemente o que eu pensava e a forma como interpretava o mundo, inclusive meu mundo. Descobri que morava no Sertão, não apenas no sertão, com os livros de Ariano Suassuna. Sertão como entidade, não apenas como localidade. Minhas primeiras paixões malfadadas eu as sofri pelas lentes de Ivanhoé; meu anticlericalismo foi moldado pelas Brumas de Avalon. 

Otto Maria Carpeaux julgava a ficção-científica como literatura escapista. Para mim toda a literatura era escapista, uma fuga da realidade imperfeita e feia. Em momentos de estresse eu sempre procurei um livro para ler, uma obra de ficção. Não se tratava apenas de um refúgio, mas de uma preparação para enfrentar o que viesse. Quando me preparava para o vestibular, morando longe de casa, entre as seções de estudo eu sempre lia. Devorei Crime e Castigo nesse tempo. Mestre e Margarida, Pais e filhos. Minha tia, em cuja casa eu morava, nunca conseguiu entender isso, apesar de ser uma ávida leitora ela mesma. Achava que eu não estudava e não conseguiria entrar na universidade. Talvez só tenha conseguido entrar por causa de minhas leituras.

Hoje leio muito menos do que lia e bem menos do que gostaria. Não é só questão de tempo, mas de entusiasmo. Já não me entusiasmo tão frequentemente e abandono leituras começadas muito mais do que eu costumava. Imagino que a urgência dos tempos tenha uma parcela de culpa, as redes sociais têm nos adestrado para sermos imediatistas e buscarmos microdoses de satisfação. Não tem nada a ver com o que demanda a literatura. Tanta coisa atualmente me faz pensar em 1984. O scrolling talvez seja muito mais eficiente em obliterar o pensamento do que a novilíngua ou o duplipensar. 

É a perpetuação do instantâneo. Pergunto-me como serão as personalidades formadas sob influência do scrolling, sem memórias de longo prazo, sem possibilidade nem necessidade de releituras. No Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, que preciso reler urgentemente, a população é alimentada com modismos que duram horas. É convencida de que precisa comprar itens absolutamente desnecessários para que pertençam. Essas estratégias de manipulação (marketing) hoje me parecem muito mais óbvias do que quando Orwell e Huxley escreveram suas obras-primas, mas de alguma forma conseguiram detectar os tênues indícios do que viria. Talvez porque vivessem num mundo em que leituras e releituras ainda eram possíveis.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Mudaram os sebos ou mudei eu?

Mudamos ambos, eu sei, mas apesar de os sebos não poderem se decepcionar comigo, eu me decepciono com os sebos. Por mais que eu tente adotar a filosofia budista de não me iludir com a impressão da imutabilidade, a mudança ainda me surpreende e entristece. Por muitos anos alimentei o desejo de conhecer O Sebo Cultural, em João Pessoa. Estive lá ontem e a única forma de descrever minha experiência é com o adjetivo burocrático. Com um acervo de mais de quinhentos mil livros, não encontrei os três que procurei. Essa não foi a decepção principal, claro. O que me decepcionou foi compreender que o estabelecimento não é um sebo, é um depósito de livros para vendas na internet. 

Logo na entrada uma moça gentil me perguntou qual livro eu desejava comprar e pareceu achar estranho minha resposta de que eu queria procurar por mim mesmo. Insistiu que o melhor era eu me dirigir a um dos atendentes para uma consulta no computador. Ao perguntar se havia uma seção específica para obras de ficção-científica, responderam-me que até havia uma seção, mas que eu encontraria pouca coisa lá, o melhor era consultar nos registros o título específico que eu procurava. Entendi por que praticamente não havia clientes olhando as estantes. E, realmente, procurando nas estantes teoricamente dedicadas à ficção-científica, o mais próximo disso que encontrei foi uma edição de Game of Thrones. Peguei um livro qualquer e me sentei numa mesa para folhear e ter uma visão melhor das estantes.

Nesse momento compreendi por que estava tão desconfortável. Aquele não era um ambiente para descobertas ao acaso, para um prazeroso e paciente folhear de livros usados, ou seja, não era um sebo. O nome Sebo Cultural se tornara uma marca recebida de uma entidade que não existia mais. Entendo perfeitamente os imperativos comerciais de se adaptar ao comércio online, de ter um acervo atrativo e catalogado para consultas virtuais. Só não tinha me dado conta que o comércio online havia se tornado tão importante a ponto de transformar física e psicologicamente, por assim dizer, a experiência do sebo.

Aqueles sebos que eu visitava quando adolescente, onde descobria fascinado a rica literatura de FC publicada nas décadas de 70 e 80 por editoras extintas como a GRD, onde uma vez encontrei uma rara primeira edição de O país do futuro de Stefan Zweig e não comprei, provavelmente não existem mais. Sebo virou um nome genérico para lojas de livros usados. A ilusão da permanência. Para Julieta "o que chamamos de rosa, com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável", mas não previu que, mesmo que a chamemos de rosa, uma Sterculia nunca terá um perfume agradável. Há muita coisa em um nome.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O escreveres

Se eu tivesse que escrever regularmente, para ganhar a vida, conseguiria? Pode ser, pode ser que não. Meu modelo de escritor profissional é Bráulio Tavares, cujo trabalho acompanho fielmente há quase duas décadas. Passei a conhecer melhor sua escrita depois que ele transcreveu sua coluna diária no Jornal da Paraíba para o blog Mundo Fantasmo e de início me surpreendi com sua verve e, principalmente, a regularidade com que produzia textos interessantes. Alguns interessantíssimos. O próprio Bráulio, geralmente quando alguém elogia seu talento e sua prolificidade, diz que a escrita é seu emprego, depende daquilo, sua renda provém de seus textos. Eu escrevo como artista bissexto, sem regularidade, no ritmo da "inspiração". Acredito que teria potencial para escrever mais se fosse disciplinado, talvez mesmo fazer disso uma carreira, mas a vida me levou por outros destinos.

Uma professora sisuda me informou um dia que eu escrevia bem, nos idos de 1989, pouco mais ou menos. Escrevi uma redação simples, usando recursos que eu vira em livros e achara interessante. Quando se lê muito, o arsenal de recursos literários fica mais amplo e é possível, a partir da imitação, produzir textos legíveis, até agradáveis. Isso é um fato que os estudantes hoje não conseguem entender - existe uma tradição escrita que é preciso conhecer. Escrever é diferente de falar e a forma de expressar uma coisa por escrito é muito diversa de expressar aquilo falando diretamente com o interlocutor. As lacunas em um texto não podem ser preenchidas com gestos ou expressões faciais, no máximo com a descrição significativa dessas expressões e daqueles gestos. A língua escrita, note-se, não é uma transcrição da língua falada. Não é meramente uma transcrição da língua falada. Talvez possa ser considerada uma linguagem independente.

Sinto uma agonia e quase uma dor psicológica quando preciso revisar um trabalho científico hoje. Existe uma certa originalidade em quanto um texto pode ser ruim. Falei de estudantes, mas não são só eles. Um colega com quem geralmente colaboro me enviou um rascunho de publicação há alguns anos para que eu revisasse e o texto se mostrou incompreensível e, sob meu ponto de vista, irrevisável. Mais ou menos na mesma época, recebi o texto de uma dissertação de mestrado em cuja banca de defesa eu participaria. Inicialmente tive certeza que o estudante era estrangeiro porque, raciocinei, aqueles não eram erros típicos de um falante nativo. Era um falante nativo. 

Como avaliar a competência técnica de quem não consegue dizer o que fez? Parto do pressuposto de que um pós-graduando deve desenvolver uma compreensão aprofundada do que fez, através de leituras e experimentação. Deve entender não apenas o operacional metodológico, mas o próprio porquê da metodologia utilizada. Como aceitar que alguém que não consegue se expressar em seu próprio idioma atingiu isso?

domingo, 11 de janeiro de 2026

Um lugar literário pouco freqüentado

Gosto de assistir vídeos no YouTube, talvez seja minha maior perda de tempo hoje. Esses dias vi um trecho de uma palestra espetáculo de Ariano Suassuna em que ele perguntava se alguém na plateia ouvira falar de Kant; obviamente quase todos levantaram a mão. Claro, ele retrucou, Kant foi o filósofo alemão mais importante do século 18. Em seguida, perguntou quem na palestra ouvira falar de Matias Aires. Uma só pessoa levantou a mão. Suassuna explica então que Matias Aires foi o maior filósofo de língua portuguesa do mesmo século de Kant, reforçando seu argumento de que não apenas valorizamos o que é estrangeiro, mas desvalorizamos tanto o que é nosso a ponto de ignorarmos sua existência. O clímax cômico vem quando ele pergunta ao rapaz que levantou a mão onde ele ouvira falar sobre Matias Aires e o rapaz responde que é o nome da rua onde mora. 

Entendo perfeitamente o argumento de Suassuna e tendo a concordar com a defesa que ele faz do que é bom e grandioso em nossa herança cultural, mas vejo uma falha e talvez uma pequena simplificação (não chegaria a chamar de desonestidade) intelectual: o valor e a "nomeada" de um filósofo não dependem apenas da língua que fala ou de sua promoção - dependem, imagino, da qualidade e da relevância de sua obra filosófica. Hoje, acho mais surpreendente que tanta gente na palestra tivesse ouvido falar de Kant do que sua ignorância em relação a Matias Aires. Certamente um público mais intelectualizado. Baruch Espinosa também era, por assim dizer, da tradição filosófica portuguesa e é muito mais conhecido do que Aires e talvez tanto quanto Kant.

O problema é que para fazer a defesa de uma ideia normalmente se usam generalizações e simplificações. O poder do argumento de Suassuna seria perdido se ele fosse explicar que Kant é tão conhecido porque "reorganizou o campo inteiro da filosofia", enquanto Matias Aires, considerado um moralista agudo e elegante, não criou uma ruptura conceitual de grande escala, não gerou uma tradição nem obrigou as gerações posteriores a dialogar com ele, daí seu relativo desconhecimento hoje. Ariano não mentiu nem inventou: para fortalecer seu argumento, ele omitiu e simplificou. Ainda assim, eu acho esse um subterfúgio intelectual arriscado. Como um pesquisador atuante, eu prefiro sustentar meus argumentos com fatos, de preferência os publicados e avaliados por pares.

Recentemente, uma pessoa que prezo me disse que não acreditava que a humanidade fosse responsável pelas mudanças climáticas, que o planeta era grande demais para que as atividades humanas pudessem ter um efeito tão grande. Até aí, achei as dúvidas válidas, mas facilmente retrucáveis. Por fim, a pessoa abriu o YouTube no celular, me mostrou uma palestra do meteorologista e negacionista climático Luiz Carlos Molion e disse exatamente essas palavras: "a opinião que eu gosto é desse aqui". Há algum tempo, alguém comentou em um texto meu que não via por que a opinião de um cientista valia mais do que a de qualquer pessoa. Aí reside o equívoco do século.

Um bom cientista, ao falar de um assunto de base científica, dará suas impressões a partir de dados científicos, obtidos utilizando-se o método científico. O que torna a fala científica diferente não é o cientista “ter um método”, mas o fato de que o conhecimento é produzido sob restrições e mecanismos de correção que opiniões comuns não têm: evidência pública e verificável, métodos de controle de erro, reprodutibilidade/replicação quando aplicável, convergência de múltiplas linhas de evidência, revisão por pares e escrutínio comunitário. Uma opinião desse tipo não é equivalente a uma opinião baseada em gosto ou preferência.

Quando abrimos mão de critérios rigorosos de validação intelectual em nome da eficácia retórica ou do conforto pessoal, criamos um terreno movediço onde qualquer “opinião que eu gosto” pode se apresentar como equivalente ao conhecimento. No caso de Suassuna, parece-me que o uso de recursos retóricos é válido porque ele geralmente emite sua opinião sobre arte, sobre estética, onde o critério de valor reside no bom-gosto, na preferência, seja ela canônica ou não. E isso não quer dizer que em Arte vale qualquer coisa, tampouco.

Nas discussões sobre o valor artístico há pluralidade de critérios, há disputas canônicas legítimas, mas a demonstração raramente é do tipo “prova”. Ainda assim, quando discute o valor de um filósofo ou de uma filosofia, aprovo os recursos retóricos com ressalvas, como no exemplo dado. As mudanças climáticas e sua origem a partir das ações humanas são consideradas fatos científicos não porque essa é a opinião dos cientistas, mas porque as evidências apontam fortemente para isso, independente do gosto pessoal do cientista ou de seu talento retórico.

Na cadeira de balanço

 "Por que você tem tantos livros?" "Eu gosto muito de ler." "Mas você já leu todos?" "Não! Li boa parte, ...