"Por que você tem tantos livros?"
"Eu gosto muito de ler."
"Mas você já leu todos?"
"Não! Li boa parte, mas aqui tem alguns que são para consultas, alguns são livros de arte, mais para apreciar do que para ler. E há os que planejo ler em algum momento."
"Mas aí não seria melhor comprar quando fosse ler?"
"Talvez, se minha leitura fosse uma rotina, uma obrigação, mas a leitura para mim se aproxima mais de um ritual sagrado. Há quem vá à missa aos domingos, eu leio. Além do mais, o livro não é simplesmente o amontoado de palavras com um objetivo utilitário. Eu tenho prazer em manusear um livro, apreciar a qualidade da impressão, o prazer tátil e olfativo do papel, a arte das capas. De vez em quando compro um livro mesmo sabendo que não o vou ler naquele momento, mas me interessou aquela edição. Enfim, o prazer estético não está apenas na leitura, mas no livro como objeto de arte."
"Que estranho, não imaginava que alguém pudesse gostar anto de livros."
"Sim, minha família, tanto do lado paterno quanto do materno, tem uma relação especial com os livros. Meu avô paterno, um agricultor pobre do semi-árido nordestino da primeira metade do século 20, se dava o luxo de possuir livros. Um de seus filhos, meu tio João, gostava de contar que vovô passou seis meses lendo o livro Tarzan das Selvas e, finalizado, mais uns dois meses para recontar a estória. Acho isso fascinante. Vovô fazia poemas, tinha um caderninho onde os escreveu, perdido."
"Livro para mim eram os de literatura que a gente era obrigada a ler no ensino médio."
"Eu entendo, isso não permite que haja a formação de um vínculo com o livro. Para mim foi diferente. Me lembro, quando bem criança, morando um tempo na casa de meu avô materno, de manusear os livrinhos de faroeste de vovô, livrinhos pulp fiction que ele comprava num sebo em frente ao Cine São Francisco, em Patos. Achava fascinante aquilo. Mais tarde, adolescente, descobri que vovô gostava também de livros de detetive e passei a emprestar a ele os livros de minha coleção de Agatha Christie. Ainda tenho viva na memória a imagem dele lendo concentrado enquanto fumava o boró no quintal, sentado no batente de uma escada, ou na sala da casa, sentado numa cadeira de balanço, a perna direita cruzada sobre a esquerda. Alguns de meus livros ainda guardam manchas do fumo do boró."
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