Se eu tivesse que escrever regularmente, para ganhar a vida, conseguiria? Pode ser, pode ser que não. Meu modelo de escritor profissional é Bráulio Tavares, cujo trabalho acompanho fielmente há quase duas décadas. Passei a conhecer melhor sua escrita depois que ele transcreveu sua coluna diária no Jornal da Paraíba para o blog Mundo Fantasmo e de início me surpreendi com sua verve e, principalmente, a regularidade com que produzia textos interessantes. Alguns interessantíssimos. O próprio Bráulio, geralmente quando alguém elogia seu talento e sua prolificidade, diz que a escrita é seu emprego, depende daquilo, sua renda provém de seus textos. Eu escrevo como artista bissexto, sem regularidade, no ritmo da "inspiração". Acredito que teria potencial para escrever mais se fosse disciplinado, talvez mesmo fazer disso uma carreira, mas a vida me levou por outros destinos.
Uma professora sisuda me informou um dia que eu escrevia bem, nos idos de 1989, pouco mais ou menos. Escrevi uma redação simples, usando recursos que eu vira em livros e achara interessante. Quando se lê muito, o arsenal de recursos literários fica mais amplo e é possível, a partir da imitação, produzir textos legíveis, até agradáveis. Isso é um fato que os estudantes hoje não conseguem entender - existe uma tradição escrita que é preciso conhecer. Escrever é diferente de falar e a forma de expressar uma coisa por escrito é muito diversa de expressar aquilo falando diretamente com o interlocutor. As lacunas em um texto não podem ser preenchidas com gestos ou expressões faciais, no máximo com a descrição significativa dessas expressões e daqueles gestos. A língua escrita, note-se, não é uma transcrição da língua falada. Não é meramente uma transcrição da língua falada. Talvez possa ser considerada uma linguagem independente.
Sinto uma agonia e quase uma dor psicológica quando preciso revisar um trabalho científico hoje. Existe uma certa originalidade em quanto um texto pode ser ruim. Falei de estudantes, mas não são só eles. Um colega com quem geralmente colaboro me enviou um rascunho de publicação há alguns anos para que eu revisasse e o texto se mostrou incompreensível e, sob meu ponto de vista, irrevisável. Mais ou menos na mesma época, recebi o texto de uma dissertação de mestrado em cuja banca de defesa eu participaria. Inicialmente tive certeza que o estudante era estrangeiro porque, raciocinei, aqueles não eram erros típicos de um falante nativo. Era um falante nativo.
Como avaliar a competência técnica de quem não consegue dizer o que fez? Parto do pressuposto de que um pós-graduando deve desenvolver uma compreensão aprofundada do que fez, através de leituras e experimentação. Deve entender não apenas o operacional metodológico, mas o próprio porquê da metodologia utilizada. Como aceitar que alguém que não consegue se expressar em seu próprio idioma atingiu isso?
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