sábado, 24 de janeiro de 2026

Releituras

Acho que preciso reler os livros da juventude. Hoje li um livro de Rubem Fonseca que parece ser uma continuação de outro, lido há décadas e completamente esquecido. Percebo que meu gosto por literatura e mesmo minha habilidade em escrever têm raízes em livros que lembro de ter lido, mas de cujos enredos me esqueço completamente. Comecei a ler cedo, menino inexperiente e tímido. Os livros moldaram fortemente o que eu pensava e a forma como interpretava o mundo, inclusive meu mundo. Descobri que morava no Sertão, não apenas no sertão, com os livros de Ariano Suassuna. Sertão como entidade, não apenas como localidade. Minhas primeiras paixões malfadadas eu as sofri pelas lentes de Ivanhoé; meu anticlericalismo foi moldado pelas Brumas de Avalon. 

Otto Maria Carpeaux julgava a ficção-científica como literatura escapista. Para mim toda a literatura era escapista, uma fuga da realidade imperfeita e feia. Em momentos de estresse eu sempre procurei um livro para ler, uma obra de ficção. Não se tratava apenas de um refúgio, mas de uma preparação para enfrentar o que viesse. Quando me preparava para o vestibular, morando longe de casa, entre as seções de estudo eu sempre lia. Devorei Crime e Castigo nesse tempo. Mestre e Margarida, Pais e filhos. Minha tia, em cuja casa eu morava, nunca conseguiu entender isso, apesar de ser uma ávida leitora ela mesma. Achava que eu não estudava e não conseguiria entrar na universidade. Talvez só tenha conseguido entrar por causa de minhas leituras.

Hoje leio muito menos do que lia e bem menos do que gostaria. Não é só questão de tempo, mas de entusiasmo. Já não me entusiasmo tão frequentemente e abandono leituras começadas muito mais do que eu costumava. Imagino que a urgência dos tempos tenha uma parcela de culpa, as redes sociais têm nos adestrado para sermos imediatistas e buscarmos microdoses de satisfação. Não tem nada a ver com o que demanda a literatura. Tanta coisa atualmente me faz pensar em 1984. O scrolling talvez seja muito mais eficiente em obliterar o pensamento do que a novilíngua ou o duplipensar. 

É a perpetuação do instantâneo. Pergunto-me como serão as personalidades formadas sob influência do scrolling, sem memórias de longo prazo, sem possibilidade nem necessidade de releituras. No Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, que preciso reler urgentemente, a população é alimentada com modismos que duram horas. É convencida de que precisa comprar itens absolutamente desnecessários para que pertençam. Essas estratégias de manipulação (marketing) hoje me parecem muito mais óbvias do que quando Orwell e Huxley escreveram suas obras-primas, mas de alguma forma conseguiram detectar os tênues indícios do que viria. Talvez porque vivessem num mundo em que leituras e releituras ainda eram possíveis.

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