quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Villa Doraci

Em minha cidade natal na Paraíba, Patos, havia uma belíssima residência, não sei se de estilo neoclássico, chamada Villa Doraci. Uma casa com nome, como na Europa. O dono era um médico conceituado, Dr. Severino Ayres de Araújo, de família rica, possuiu o primeiro automóvel da cidade, importado de navio. Dr. Severino batizou a mansão em homenagem a sua esposa, Doraci Wanderley, mulher de sangue nos olhos, como se dizia. Quando comecei minhas inquisições genealógicas na adolescência me aconselharam a procurá-lo. Apesar de minha timidez, fui à casa dele acompanhado de um amigo que o conhecia bem, cuja mãe havia sido cria da casa. Tivemos uma conversa muito agradável e o velho médico me emprestou um de seus cadernos de anotações genealógicas, cadernos de ata de capa preta, escritos numa bonita letra cursiva, com informações interessantes sobre cada pessoa citada.

Aqueles cadernos eram uma formidável contribuição à Historiografia sertaneja, assim como a Villa Doraci era uma notável obra arquitetônica no meio da simplicidade sertaneja. Não existem mais, nem os cadernos nem a residência. Não temos mais consideração pela História. Pelo contrário, quando morei na Zona da Mata mineira, quantos novos ricos ouvi dizerem que detestavam Ouro Preto porque quem gosta de passado é museu. Quanto risco civilizatório existe no poder econômico dissociado do capital cultural. A começar pelo descaso com os monumentos, com os livros, com as obras arquitetônicas. Villa Doraci e os cadernos de Dr. Severino são um símbolo desse descaso. Severino Ayres de Araújo vinha de outra época, quando o acúmulo de capital financeiro era geralmente acompanhado do desejo de se acumular capital cultural. Era neto de José Peregrino de Araújo, o qual governou a Paraíba de 1900 a 1904. 

Assim como se observa hoje e que talvez seja uma tendência comum, a ascensão social conduz à busca pelas origens como forma de consolidar o capital financeiro, político e mesmo cultural. Busca pelo resgate de um capital simbólico porventura esquecido de uma linhagem outrora célebre. Assim vejo os esforços de pesquisa genealógica de Dr. Severino. Uma residência suntuosa de estilo europeu, de muito bom gosto, era mais um símbolo, um sinal de diferença, atestando não apenas a riqueza, mas o refinamento cultural de uma família. Imaginem demolir isso em favor de um desses prédios padronizados para alugar escritórios. Considerem o que se perde ao substituir as anotações genealógicas por posts anódinos no Instagram. Reflitam sobre o declínio de se desprezar uma cultura humanista por vídeos extremistas no YouTube.

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