terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Ficção científica, transgênicos e o imaginário contemporâneo

Gosto de ficção científica desde antes de entender bem de que se tratava. Não consigo ver nenhum outro gênero que consiga dialogar tão bem com os conflitos do mundo moderno como a ficção científica e vejo com naturalidade que autores considerados "mainstream" lancem mão de recursos literários típicos desse gênero ao desejarem refletir sobre a atualidade e o futuro. Para mim, o exemplo maior disso é o livro The Road (A Estrada) de Cormac McCarthy, apesar de "uma faixa mais sofisticada da crítica" não aceitar que a obra de um autor canônico como McCarthy seja classificada como ficção científica. Bráulio Tavares, no clássico O que é Ficção Científica, reconhece que há muita coisa sendo classificada como ficção científica, o que o leva a considerar que o termo hoje é uma arca-de-noé, sob o qual se abrigam desde obras de fantasia frouxamente inspiradas na Ciência até obras chamadas de FC hard, onde se podem encontrar "racionalizações científicas convincentes".

Um autor que tem chamado a atenção pelo fôlego novo que inspirou no gênero é o engenheiro chinês Cixin Liu, com sua obra O Problema dos Três Corpos. Essa obra é amplamente considerada como ficção científica hard "com um forte componente filosófico e existencial". Não pretendo discutir os aspectos físicos e cosmológicos da obra, os quais fogem à minha compreensão mais profunda, mas abordar um pequeno trecho que me chamou particularmente a atenção. No enredo do livro há a menção a uma sociedade científica chamada Frontiers of Science, muito ligada aos eventos descritos. Um membro proeminente da Frontiers of Science é um biólogo chamado Pan Han: "Como biólogo, ele havia conseguido prever defeitos congênitos associados ao consumo prolongado de alimentos geneticamente modificados. Também previra os desastres ecológicos resultantes do cultivo de plantações geneticamente modificadas." Apesar de ter apreciado profundamente o livro de Cixin Liu, esse trecho específico me incomodou.

Entendo perfeitamente que alguém questione o uso de qualquer tecnologia por grandes corporações interessadas apenas em maximizar os lucros. Acho um absurdo que uma empresa tenha desenvolvido plantas transgênicas que levem ao aumento do uso de um agrotóxico ou outro produto desenvolvido por essa mesma companhia. Não há dúvida que isso inevitavelmente causasse uma recepção negativa da tecnologia, qualquer que fosse. Pior, o termo geneticamente modificado ficou indelevelmente associado a essa estratégia moralmente questionável de "venda casada". Pouca gente associa "plantas transgênicas" com os exemplos claramente benéficos que beneficiam ou têm o potencial de beneficiar inclusive pequenos agricultores e populações sob insegurança alimentar, como o feijão resistente a viroses ou o arroz dourado. Como gosto de pensar por mim mesmo e chegar a minhas próprias conclusões, não apoio conscientemente dogmatismos ideológicos. Vejo um grande potencial nos cultivos geneticamente modificados e na agricultura orgânica. Vejo um potencial ainda maior na combinação de ambos.

Considero que a qualidade das críticas hoje feitas aos cultivos geneticamente modificados é muito heterogênea: apesar de conter elementos científicos e preocupações socioeconômicas legítimos, há também componentes ideológicos que não se apoiam em evidências científicas. Ao contrário do que é afirmado, ficcionalmente, no livro O Problema dos Três Corpos, não existe evidência científica confiável de que alimentos geneticamente modificados aprovados pelos sistemas regulatórios sejam intrinsecamente mais perigosos à saúde humana do que seus equivalentes convencionais. Apesar de ter ressalvas quanto a esse trecho em particular, a obra de Cixin Liu fortalece minha impressão de que a ficção científica continua vigorosa e unicamente preparada para refletir sobre temas contemporâneos desafiadores como mudanças climáticas, colapso ecológico, degradação civilizacional e, como não, os rumos da agricultura.  

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