sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Mudaram os sebos ou mudei eu?

Mudamos ambos, eu sei, mas apesar de os sebos não poderem se decepcionar comigo, eu me decepciono com os sebos. Por mais que eu tente adotar a filosofia budista de não me iludir com a impressão da imutabilidade, a mudança ainda me surpreende e entristece. Por muitos anos alimentei o desejo de conhecer O Sebo Cultural, em João Pessoa. Estive lá ontem e a única forma de descrever minha experiência é com o adjetivo burocrático. Com um acervo de mais de quinhentos mil livros, não encontrei os três que procurei. Essa não foi a decepção principal, claro. O que me decepcionou foi compreender que o estabelecimento não é um sebo, é um depósito de livros para vendas na internet. 

Logo na entrada uma moça gentil me perguntou qual livro eu desejava comprar e pareceu achar estranho minha resposta de que eu queria procurar por mim mesmo. Insistiu que o melhor era eu me dirigir a um dos atendentes para uma consulta no computador. Ao perguntar se havia uma seção específica para obras de ficção-científica, responderam-me que até havia uma seção, mas que eu encontraria pouca coisa lá, o melhor era consultar nos registros o título específico que eu procurava. Entendi por que praticamente não havia clientes olhando as estantes. E, realmente, procurando nas estantes teoricamente dedicadas à ficção-científica, o mais próximo disso que encontrei foi uma edição de Game of Thrones. Peguei um livro qualquer e me sentei numa mesa para folhear e ter uma visão melhor das estantes.

Nesse momento compreendi por que estava tão desconfortável. Aquele não era um ambiente para descobertas ao acaso, para um prazeroso e paciente folhear de livros usados, ou seja, não era um sebo. O nome Sebo Cultural se tornara uma marca recebida de uma entidade que não existia mais. Entendo perfeitamente os imperativos comerciais de se adaptar ao comércio online, de ter um acervo atrativo e catalogado para consultas virtuais. Só não tinha me dado conta que o comércio online havia se tornado tão importante a ponto de transformar física e psicologicamente, por assim dizer, a experiência do sebo.

Aqueles sebos que eu visitava quando adolescente, onde descobria fascinado a rica literatura de FC publicada nas décadas de 70 e 80 por editoras extintas como a GRD, onde uma vez encontrei uma rara primeira edição de O país do futuro de Stefan Zweig e não comprei, provavelmente não existem mais. Sebo virou um nome genérico para lojas de livros usados. A ilusão da permanência. Para Julieta "o que chamamos de rosa, com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável", mas não previu que, mesmo que a chamemos de rosa, uma Sterculia nunca terá um perfume agradável. Há muita coisa em um nome.

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