A Ciência é uma maneira de ver e interpretar o mundo. Uma maneira dinâmica e que se corrige a si mesma visto que a principal ferramenta com a qual se constrói o conhecimento científico, o método científico, prevê que uma afirmação científica deve ser feita a partir de dados coligidos por observações, controladas ou não, e que se houver dados mais robustos que desmintam ou desautorizem aquela afirmação, uma nova afirmação deverá ser feita. É o contrário da visão dogmática de outras formas de interpretação do mundo, em que um dogma é uma verdade inquestionável, sem se levar em consideração plausibilidade ou dados de observação. São raros os líderes religiosos que afirmam, como parece ter afirmado o atual Dalai Lama, que se a Ciência provasse que algo em sua visão religiosa estivesse errado, ele ficaria com a Ciência. Reconheço, no entanto, que cientistas podem ser dogmáticos em sua prática cotidiana. Uma amiga diz que esses são pesquisadores, não cientistas.
É frustrante que indivíduos firmemente agarrados a uma visão dogmática de mundo acusem alguém com uma visão científica e saudavelmente cética de ter uma mente estreita, já que a Ciência é falha e não consegue explicar tudo. Recentemente um grupo da Universidade da Califórnia em Irvine concluiu que a acupuntura, técnica tradicional da medicina chinesa, teria efeito positivo no controle da hipertensão por forçar o corpo humano a produzir substâncias opioides. Apesar de relatos positivos de pessoas próximas, mantive sempre uma relação de ceticismo com a acupuntura por nunca ter visto dados científicos que a comprovassem e por me sentir incomodado por expressões típicas do pensamento mágico como "centros de energia" e chakras.
Ao tomar conhecimento da observação de efeitos positivos do tratamento sobre a saúde humana, não pela confirmação de noções ou entidades místicas, mas pela ativação de mecanismos fisiológicos perfeitamente explicáveis, não tive problema algum em reconhecer que meu ceticismo em relação à acupuntura estava equivocado e reavaliei meu julgamento anterior sem que minha visão de mundo sofresse nenhum abalo. A razão de meu ceticismo anterior pela acupuntura foi na verdade justificada pelas recentes descobertas - a explicação mística de um fenômeno real mostrou-se além de desnecessária, equivocada.
Alguns fenômenos, no entanto, sejam eles reais ou imaginados, são em sua própria natureza ditos místicos ou sobrenaturais. Para esses fenômenos, diz-se, a Ciência não tem competência para julgar ou avaliar sequer a veracidade.
Para alguns fenômenos afirma-se que a falta de comprovação científica se deve mais a uma lacuna metodológica ou conceptual, mas que com o avanço das técnicas analíticas inexoravelmente a Ciência terá como comprovar a veracidade. A homeopatia entraria nesse rol. Ora, ao contrário do que alguns pensam, não é apenas o fato de que com um simples cálculo pode-se comprovar que, nas diluições homeopáticas, nada reste, nem um átomo sequer, da substância originalmente presente que a desacredita. Segundo alguns, os efeitos imputados aos medicamentos homeopáticos se deve a uma ainda não comprovada memória da água.
O problema não é que não se tenha comprovação da memória da água. A questão é que nenhum estudo conseguiu comprovar que os medicamentos homeopáticos tenham efeito. Pelo contrário, há evidências científicas fortes, baseadas em estudos robustos, de que a homeopatia simplesmente não funciona, tenha a água memória ou não. Ora, acreditar que algo exista mesmo sem que haja evidências dessa existência é fé. Pouco importam os fatos quando a crença é uma questão de fé.
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