Há mais de uma semana não escrevo. Leio, releio e nada. Aliás, ontem assisti uma excelente minissérie argentina intitulada Nada, com o ator Luis Brandoni, que adoro. O protagonista, um crítico gastronômico genial chamado Manuel Tamayo Prats, não parece se importar muito por ter perdido a inspiração de escrever nem por ter recebido dois adiantamentos de sua editora por um livro que não vem. Na série, assim como no filme Mi obra maestra, Brandoni interpreta artistas completamente cientes de sua dignidade e convencidos de que o mundo, ou pelo menos Buenos Aires, lhes deve refeições gratuitas e bons vinhos, no mínimo una grapita italiana deliciosa. Tanto Renzo Nervi quanto Manuel Tamayo Prats são artistas aristocráticos para quem a falta de dinheiro não impede que desfrutem os prazeres de que se consideram merecedores.
O que admiro em ambos os personagens é a completa independência intelectual e um desprezo irônico pela vulgaridade. O dinheiro parece ser, para ambos, o meio de conseguirem as coisas prazerosas da vida. Tenho a impressão de que a nenhum dos dois ocorreria a ideia de acumular la plata como se fossem vulgares capitalistas. Não há como não me lembrar de minha professora de História do ensino ginasial, dona Terezinha, explicando a diferença entre nobreza e burguesia e mencionando que, mesmo quando as empobrecidas famílias nobres davam suas filhas em casamento a burgueses enriquecidos, estes não se sentavam à mesa principal. A aristocracia estética de Tamayo Prats e de Renvi a penas suportava a presença necessária de mecenas ricos.
Apesar de desafiados pela modernidade, nenhum dos dois recai na vulgar reprovação do moderno simplesmente por se sentirem deslocados ou anacrônicos. Manuel acaba adquirindo um celular e Renzo tem relações com jovens discípulas. Claro, a continuidade temática não se deve à presença de Luis Brandoni, mas à direção de Gastón Duprat em ambos os filmes, provavelmente, mas Brandoni interpreta genialmente o tipo. Os dois personagens deveriam ser melhor desenvolvidos, necessariamente em uma obra escrita. Melhor, em duas obras, porque não caberiam os dois num só livro. Tenho a impressão que se achariam insuportáveis e arrogantes.
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