Dois fatos me levaram à decisão de voltar a escrever um blog: notei que estava me entregando cada vez mais ao scrolling, que considero uma forma de calar o pensamento e aniquilar a consciência; o surgimento dos LLM, aka Inteligência Artificial, facilitando a elaboração de pequenos textos para divulgação nas redes sociais e terceirizando a necessidade de usar o cérebro para escrever. Acho que é o começo do fim da inteligência humana. Não importa que esses textos escritos quase diariamente não tenham a mesma qualidade dos textos mais pensados, melhor elaborados. Pelo menos garanto que ainda sei escrever, ainda consigo expressar, por minha conta, o que quero comunicar. Perdida essa habilidade, o que resta? Tenho a impressão que cada vez menos gente pensa e que as pessoas pensam cada vez menos e de que essa é a verdadeira causa de muitos dos problemas que afligem a medíocre humanidade desse século XXI.
Procura-se o YouTube como fonte de opiniões. É uma armadilha insidiosa. O que deveria ser uma simples consulta acaba sendo uma infecção. O tão falado e pouco entendido algoritmo "experimenta" com quem cai na armadilha. "Observa" onde a presa clica mais, onde sua atenção permanece, estima o que a desagrada, evita o que tira sua atenção. Pouca gente tem gostos tão diversos que confundam o algoritmo ou o tornem inócuo. Acho que a efetividade do algoritmo só é possível pela enorme quantidade de vídeos existentes hoje na internet. É possível "sugerir" vídeos semelhantes, com as mesmas opiniões, quase indefinidamente. Isso certamente vai se tornar mais grave com a possibilidade de se gerar vídeos com IA. Meu incômodo não é simplesmente porque as pessoas têm se tornado cada vez mais monotemáticas e arredias a opiniões discordantes. O que é assustador é que a ação eficiente de uma entidade intangível, o algoritmo, esteja modificando o mundo.
As interpretações teóricas da História, até onde entendo, se baseiam na ação humana ou da natureza: a luta de classes, os imperativos ambientais, a força de grande personagens históricos. Hoje, parece-me, domina um agente histórico sem corpo, sem intenção moral, sem responsabilidade, praticamente sem existência. Claro, esse agente foi criado por inteligências e mãos humanas com pelo menos um objetivo claro: prender a atenção de consumidores potenciais, do que quer que seja. Mas duvido que os programadores do Algoritmo tivessem a mínima noção de que estivessem alternado a face do mundo e da História com seus códigos impessoais. Não há como não pensar no conceito de meme como formulado por Richard Dawkins no livro O gene egoísta - uma entidade auto-replicadora que pode ser considerada como uma estrutura viva. O mundo governado por uma ideia.
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